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JOSÉ NÊUMANNE

O exílio da cunhada do irmão do Henfil

Por que o PT mantém fechado o caso Celso Daniel e a oposição não reclama das ameaças aos irmãos da vítima?

Em seu primeiro depoimento à CPI dos Bingos sobre o caso Santo André, o chefe de gabinete de Luiz Inácio Lula da Silva, Gilberto Carvalho, tentou desqualificar as dúvidas sobre a investigação do assassínio de Celso Daniel aventadas pelo irmão mais velho do ex-prefeito, o oftalmologista João Francisco, insinuando ligações espúrias dele com empresários de ônibus da cidade. E manifestou a esperança de que o depoimento do outro irmão, Bruno José, teria mais valor, pois este fora militante do PT e, ao contrário do outro, tinha uma relação mais fraterna com a vítima. Só que este confirmou tudo o que o primogênito dissera, mostrando que a família da vítima não estava dividida na convicção de que a tese do crime comum, estranhamente comungada pela polícia tucana de Alckmin e pelo PT de Lula, é um terrível equívoco e certos estão os promotores, que apostam na hipótese de execução de mando.

Agora, com João Francisco dando plantões em rodízio por hospitais de várias cidades brasileiras e cuidando da deportação espontânea do próprio filho, ameaçado de morte, e com Bruno, a mulher e os três filhos em exílio voluntário, resta saber o que o poderosíssimo assessor direto do excelentíssimo presidente da República teria a dizer. Passa pela cabeça de qualquer brasileiro de posse das próprias faculdades mentais acreditar na possibilidade de esses parentes da vítima terem resolvido enfrentar tantos transtornos em suas vidas pessoais, a ponto de terem de pedir licença nos empregos e se esconderem pelo País e pelo mundo, apenas para prejudicar Lula e seu partido? Que tipo de ódio doentio levaria um médico e um professor universitário a passarem para a clandestinidade apenas para causar dificuldades para um grupo político do qual seu irmão não apenas fazia parte, mas era um dos dirigentes mais importantes?

Ou ainda que grupos políticos ou empresariais poderiam estar por trás de escusos interesses ocultos capazes de motivar um oftalmologista apartidário, seu irmão e sua cunhada, estes petistas de carteirinha, a fazerem uma cruzada contra o grupo político no exercício do poder?

É difícil crer nessa hipótese. E mais ainda fica difícil acreditar na
possibilidade de isso fazer parte de algo definido como uma “conspiração de direita”, quando se sabe que Marilena Nakano, a mulher de Bruno Daniel, foi secretária de Educação do cunhado na Prefeitura de Santo André e também é cunhada de um mito da esquerda brasileira, o sociólogo Betinho, o irmão do chargista Henfil tornado símbolo da luta pela anistia no verdadeiro hino em que se tornou o sucesso composto por João Bosco e Aldir Blanc para Elis Regina, O Bêbado e o Equilibrista.

Se não há uma conjura elitista contra o petismo no poder, o que, então, justificaria o fato de os irmãos Daniel e seus familiares se esconderem, enquanto os acusados de serem mandantes do crime pelos promotores gozam de plena liberdade? Liberdade, a julgar pela denúncia feita pelos parentes de Celso Daniel, até para tirar do caminho aqueles que ousam desafiar a pressa e o desleixo com que a polícia paulista tratou o caso, pelo menos até agora.

Há muitos pontos obscuros no crime e na investigação de sua autoria. O fato de Sérgio Gomes da Silva ter sido beneficiado por habeas-corpus pedido pelo presidente da República e autocraticamente concedido pelo presidente do Supremo Tribunal Federal, Nelson Jobim, deixa claro quão árdua será a tarefa de quem se dispuser a esclarecê-los. Continua duro de entender seja por que o PT luta tanto para encerrar o assunto, sempre que se tenta reabri-lo, seja por que a oposição não denunciou a ignomínia que é esse exílio voluntário do casal Daniel e seus filhos de um Estado que se julga ser de direito.

Quem sabe não seria o caso de João Bosco e Aldir Blanc comemorarem a recente reconciliação ressuscitando a velha parceria para protestar contra mais esse ignominioso abuso de poder.

José Nêumanne é jornalista, escritor e editorialista do “Jornal da Tarde”